Ouvi de um amigo a seguinte frase: “Status é aquilo que faz a gente comprar o que não precisa, com o dinheiro que a gente não tem para mostrar a quem a gente não gosta” .

O processo que nos leva a construir nosso projeto de felicidade é alicerçado o tempo todo na aquisição de bens e de marcas como tijolos dessa sempre inacabada catedral. Li no jornal um artigo do professor José de Souza Martins, chamado “O medo da classe sem destino” do qual vale a pena reproduzir um trecho.

“É próprio da classe média a adoção de um equipamento de identificação, como trajes, calçados, adornos pessoais e objetos complementares, como óculos, relógios e agora o celular, que no seu cenário de ocultamento cotidiano, que é a rua lhe permite imitar quem não é, mas gostaria de ser, a elite cujos padrões são difundidos pelo cinema, pela televisão e pelos jornais e revistas.” (Estado de São Paulo,14/06/2009)

Toda a tradição sociológica de mais de um século sempre teve muita dificuldade conceitual de categorizar o que vem a ser propriamente classe média. Ela sempre acabou sendo definida como um agrupamento humano que se interpõe aos segmentos extremos da sociedade

Do meu ponto de vista, sempre existiu também uma amargura da sociologia em relação à classe média, qualquer que seja a forma de identificá-la socialmente. Essa amargura foi, durante muito tempo, fruto de uma, digamos assim, incompatibilidade operacional de se lidar com ela. Afinal, era difícil entender do que se tratava esse grupo de pessoas, que de alguma forma incomodava as classificações mais polares da sociedade.

Quando a classe média se impôs como uma entidade definitiva na composição de nossas sociedades e contribuiu decisivamente para o desenvolvimento de nossos mercados e capitalismo, o tratamento passou a ser diferente. Mas mesmo assim, continuou existindo um olhar de permanente desconfiança em relação a ela. Como se os extremos da organização social desfrutassem de uma certa pureza conceitual e tivessem uma existência consolidada. A classe média, por sua vez, não: ela careceria de um eixo próprio de identidade e fosse, por princípio, volátil.

O olhar “desconfiado” em relação à classe média é fruto de toda essa dificuldade de tratá-la como um segmento com identidade própria que precisaria de recursos “imitativos”, como diz o professor Martins, para construir “RG” social.

Acredito mesmo que a classe média tem, na sua essência, todas ou quase todas essas características de imperfeição e impureza conceituais, quando comparada com a “nobreza” sociológica dos grupos polares. Porém, não acredito que seu mimetismo, seu impulso imitativo, sua dependência instrumentos de sinalização social sejam uma propriedade exclusiva dessa classe.

Os antropólogos se cansaram de mostrar milhares de tradições rituais, de cerimônias e rotinas sociais, em comunidades primitivas, onde os indivíduos representam papéis e se expõem recorrendo a uma infinidade de recursos que se combinam para constituir e materializar sua identidade.

A frase daquele meu amigo, sobre status, pode ser tão verdadeira quanto universal. Excluindo-se o exagero da ironia que ela contém, eu diria que todos nós somos assim. Os papéis sociais que representamos dependeram de recursos de que nos apropriamos para compor nossa expressão individual. Achar que à classe média cabe o privilégio e a condenação por agir dessa forma é uma evidente distorção da realidade empírica. Todos nós construímos nossos projetos de felicidade tanto com recursos pessoais como com que recebemos também do mercado ao nosso redor. Esta não é uma jurisdição da classe média apenas.

Imagens: Campru (http://www.flickr.com/photos/campru/1571040215/)